Rubens Otoni
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Rubens Otoni - 05/03/2009 - A crise nos caminhos goianos
05/03/2009
A crise nos caminhos goianos

Washington Novaes

"Por que quase todos os economistas são carecas?" – perguntava o falecido humorista Bussunda (Casseta & Planeta). E ele mesmo respondia: "É de tanto passarem a mão pela testa e cabeça na hora em que erram em suas interpretações." Quem contou essa história, numa palestra no Sebrae em Goiânia, foi o economista (professor da Universidade Católica no Rio de Janeiro), historiador, ex-vice-presidente de Meio Ambiente do BNDES Sérgio Besserman Vianna, ele mesmo calvo, bem-humorado e irmão do Bussunda. E é pena que o auditório não comportasse mais que umas duas centenas de pessoas, porque a discussão foi muito interessante e poderia ser útil para o empresariado goiano de modo geral.

Besserman Vianna começou afirmando que não se deve esperar que a crise global e seus efeitos já se desvaneçam este ano – não se sabe nem mesmo se a retomada será em 2010, porque há muitas perguntas sem respostas. A economia brasileira, na sua opinião, embora em melhores condições do que a da maior parte do mundo, este ano terá um "crescimento residual, estatístico, em torno de 1 a 2%, apenas". Porque os bancos continuam descapitalizados e temerosos de empréstimos com qualquer risco. E isso afetará muito as empresas menores, mais dependentes de capital de giro. E porque o mercado mundial de commodities agrícolas, minérios e outros itens tenderá a permanecer em baixa, atendendo aos interesses dos países desenvolvidos importadores – e com os cartéis que controlam esses mercados sem condições de manter a alucinante alavancagem dos últimos anos, que puxou para cima os preços (basta lembrar que a safra brasileira de soja chegou a ser negociada nos mercados futuros, em um só ano, por até 15 vezes seu valor). A revista The Economist calculou em US$ 600 trilhões (onze vezes o PIB mundial) o valor nominal dos "contratos de derivativos" (calculados por outras fontes em até US$ 780 trilhões – 600 vezes o PIB anual brasileiro). Não espanta, diante desses números, a afirmação de que as perdas no mercado já cheguem a US$ 30 trilhões; só nos bancos, US$ 4 trilhões.

Há quem creia – lembrou Besserman – que "o mercado resolverá" essas questões, mostrando fé cega na chamada autorregulação desse mercado. Mas em que moeda se dará isso, quando neste momento, apesar de a crise dos Estados Unidos ser a maior de todas, o mundo inteiro corre para proteger-se comprando títulos do Tesouro norte-americano? Por outro ângulo: vão continuar sem solução questões como a de os Estados Unidos consumirem a cada ano 6 a 7% além do que o valor de sua produção econômica permitiria, graças ao endividamento em hipotecas, bancos, cartões de crédito etc., e exigindo que o déficit do país na balança comercial e no balanço de pagamentos seja financiado em volume cada vez maior por aplicações de outros países (só a China, o maior financiador, aplicou mais US$ 580 bilhões em 2008)?

Talvez alguém diga que esta não é a primeira nem será a última crise desse tipo – lembrando a "crise de Wall Street" em 1987, superada com a incorporação da antiga área socialista ao capitalismo, dois anos depois. Ou a crise da Ásia, a crise brasileira, a mexicana e outras. Mas a atual, pelas dimensões geográfica e financeira, é mais ampla. Além de ser simultânea com crises de outra natureza, como a do consumo excessivo de recursos naturais, que já está além da capacidade de reposição da biosfera planetária; e a crise climática. Por isso também, envolve questões tão difíceis, como as dos produtores de veículos, que, além de superar o problema financeiro, terão de encontrar novos formatos de veículos menos poluidores (e os respectivos investimentos em novas tecnologias).

O mundo terá de mudar, diz Besserman. Para ele, uma das saídas estará em maior regulação financeira pelos governos. E num acordo que possivelmente crie uma nova moeda ou padrão monetário. Também na transição tecnológica. Nesse quadro, o panorama brasileiro tem suas vantagens, porque a regulação da alavancagem dos bancos já é mais rigorosa e a queda do PIB poderá ser menor que em outros países.

À margem da conferência, tendo em vista condições específicas de Goiás: é preciso dar atenção especial ao problema das commodities agrícolas, que já perderam cerca de 60% de suas cotações na crise, queda essa ditada pelos cartéis internacionais, que ditam a cotação desses produtos e atendem preferencialmente às necessidades dos países desenvolvidos importadores. Ao mesmo tempo, não só não há queda no preço dos insumos importados pelos produtores de commodities – adubos e outros insumos químicos, máquinas agrícolas etc. – como seu preço está sendo inflacionado pela alta do dólar.

É preciso conceber e colocar em prática programas que não se limitem ao tradicional aumento do crédito agrícola, porque provavelmente não será possível saldá-lo mais à frente, sem aumento das cotações de venda. É indispensável repensar métodos de produção e comercialização, inclusive para o mercado interno. E é preciso associá-los àquilo que o País tem de mais favorável nesta crise: relativa abundância de recursos naturais, 12% da água escassa no Planeta, de 15 a 20% da biodiversidade global, fontes alternativas limpas e renováveis de energia – todos os fatores escassos de que o mundo precisa. Então, é preciso estratégia que valorize esses setores.

Washington Novaes é jornalista



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