Líder do PT goiano vai fortalecendo, dia a dia, sua candidatura a governador. Mas, avisa que, para facilitar a unidade das forças anti-marconistas, aceita ser candidato a qualquer coisa. "Se for para atrapalhar a vitória do lado do presidente Lula em Goiás, prefiro não ser candidato", afirma
O deputado federal Rubens Otoni, líder máximo do PT goiano, é um político gramsciano, embora não seja marxista. Rubens é católico. O pensador marxista e político comunista italiano, Antônio Gramsci, orientava os revolucionários a serem "pessimistas no pensar e otimistas no agir". Assim é Rubens. Tem horror ao auto engano. Analisa sempre clinicamente a situação política. Não é desses que vêem mar de rosas onde ruge a tempestade mais negra. Seu projeto pessoal é servir a uma causa coletiva onde não há lugar para projetos pessoais. E assim, destituído de ilusões, consciente de suas limitações - e das limitações do PT - ele formula suas estratégias. Sempre com o pé na terra.
Mas, quando se lança à ação, é o entusiasmo que o move para a frente. Metódico, paciente e persistente, ele vai atrás de seu objetivo. Não desiste até alcançá-lo. Foi assim que ele, coordenador da campanha de Antônio Gomide à prefeitura de Anápolis, em 2008, levou à vitória, no segundo turno, um candidato que não tinha em 5% das intenções de voto, no início da campanha. Estava em último lugar em todas as pesquisas. Rubens trabalha com possibilidades. Ao identificá-las, procura convertê-las em realidade.
Rubens quer ser candidato a governador, pelo PT, agora em 2010. Vem trabalhando para isso. Mas não coloca esta pretensão como fato consumado. Sua postulação não é irremovível. "Acima de tudo, o que eu mais desejo é a vitória do nosso lado, o lado do presidente Lula, e se a minha candidatura não viabilizar esta vitória, então eu posso retirá-la", diz ele sem o menor constrangimento. Ele diz que quer ser candidato para compor e fortalecer o "lado do presidente Lula", admitindo que, se necessário, poderá ser candidato a deputado federal de novo. Sem problema.
A verdade é que Rubens já tem assegurada a candidatura de vice-governador. Ele só não será candidato a vice-governador se não quiser. Os pepistas o querem na chapa de Henrique Meirelles. Os peemedebistas o querem na chapa de Íris Rezende. Rubens sabe disso. Por isso está muito tranqüilo. A definição da chapa, ou das chapas anti-marconistas passa por ele. Não só por ele, claro. Mas, também, por ele. Se depender, portanto, de Rubens Otoni, o campo anti-marconista marchará unido e coeso para as urnas do ano que vem.
O ideal, para Rubens Otoni, é que PP, PT e PMDB, além do PR de Mabel, se coligem para enfrentar o PSDB de Marconi Perillo. É isso que ele busca. Não importa quem vai ser o cabeça de chapa, se vai ser Meirelles ou Íris. Ou Rubens. A questão é saber se Meirelles vem mesmo. Até agora, a candidatura Meirelles é mero pressuposto formal. Afastado o pressuposto, modificam-se todas as análises. Os pepistas apostam quase cegamente na candidatura Meirelles. Contudo, ao não assumir publicamente a candidatura que generosamente o PP goiano lhe franqueia, Meirelles deixa os adeptos da terceira via numa angustiante insegurança. Não faltam análises, produzidas pelos agentes do marconismo na mídia goiana, demonstrando "racionalmente" que Meirelles não virá, e que o PP acabará caindo por gravidade nas mãos de Marconi.
Rubens e Meirelles
Rubens não tem dúvidas sobre Meirelles. Acredita que ele poderá ser candidato. "Ele quer", afirma cheio de convicção o líder petista. E de onde Rubens tira esta certeza, já que é avesso a especulações metafísicas? Rubens vem conversando muito com o presidente do Banco Central. Conversas reservadas, é claro. Mas, ele disse isso com todas as letras? O deputado acha que não tem o direito de revelar o teor de suas conversas com seu conterrâneo de Anápolis. Apenas reafirma: "Ele quer". então, o pressuposto está valendo.
O fato de Meirelles ter que deixar o Banco Central no momento em que assinar ficha de filiação a algum partido não é problema. Nem para o país. Toda essa conversa de que os interesses maiores da nação exigem a permanência dele no BC é bobagem. Na avaliação fria do deputado petista, a saída de Meirelles, agora no final do ano, seria de todo conveniente para Lula. Meirelles foi fundamental para o soerguimento da economia brasileira no momento em que assumiu a presidência do BACEN e executou, com irrestiro apoio de Lula, uma política monetária ultra-ortodoxa, que, a despeito das críticas furiosas e das previsões catastróficas dos seus adversários ideológicos, acabou dando certo, atingindo os objetivos a que se propôs.
O meirellismo econômico tornou o país imune à crise econômica global. Lula tinha razão. foi, mesmo, uma marolinha. Não estivesse Meirelles no BACEN, teria sido um tsunami. Mas agora o quadro mudou, a conjuntura econômica é outra. O país está, tecnicamente em recessão, mas a inflação está controladíssima, e o câmbio, apesar da chiadeira dos exportadores, estabilizou-se num ponto de equilíbrio que não inviabiliza as exportações em encare as importações. De resto, o tabelamento da taxa selic em patamar inferior a 10% - fato inédito - reaquece o mercado interno de consumo... Enfim, estão amadurecidas as condições objetivas para uma retomada vigorosa do crescimento econômico. Mas, aí, a política monetária vai exigir um executor com perfil diferente do de Meirelles. A hora, agora, é dos desenvolvimentistas arrojados. Meirelles é "conservador" demais, cauteloso demais, prudente demais, defensivo demais, retrancado.
Lula, é claro, não vai mandá-lo embora. Mas ele, saindo, deixa o presidente à vontade para colocar no BACEN um nome adequado para lidar com os novos desafios da economia. Assim, longe de sua saída provocar crises de confiança do mercado, Meirelles estaria, na verdade, prestando mais um grande favor a Lula. A política tem dessas coisas. Neste contexto, faz todo sentido sua vinda para Goiás, para ser candidato a governador, ou a senador, ou sabe-se lá o quê.
Rubens não tem nenhum problema em compor com Meirelles. Ele defende a idéia de que, para derrotar Marconi, PP, PT e PMDB têm que estar unidos, ainda que seja apenas no segundo turno. A questão é saber se Meirelles toparia a parada até o fim caso, chegado maio ou junho do ano que vem, seus índices nas pesquisas não seja satisfatórios. Rubens propõe um acordo entre Meirelles, Íris e ele próprio visando definir nomes em função do desempenho de cada um. Rubens já disse que retira sua pretensão para facilitar composições. Meirelles faria o mesmo? Iris faria o mesmo?
A caminhada do PT
Enquanto esses acordos, combinações, tratos e acertos não se efetivam, Rubens Otoni dá tratos à bola e procura fortalecer politicamente sua candidatura ao governo do Estado caso, no final, tenha que "ir para o sacrifício". Do mesmo modo que Marconi anda correndo o interior goiano de ponta a ponta, Rubens também faz sua caminhada. Ele planejou quatro ações políticas visando da consistência à sua postulação.
A primeira dessas ações são os seminários que que vem realizando mensalmente em todas as micro-regiões goianas. São seminários visando levantar problemas e necessidades, apontar soluções, identificar demandas. Levantar, enfim, subsídios para um plano de desenvolvimento estadual que reflita o que a sociedade realmente quer, e não o que os intelectuais do PT desejam. Rubens convida todo mundo para esses seminários. Convida gente de todos os partidos - até do PSDB -, autoridades locais, entidades da sociedade civil, clubes de serviço, representantes de religiões etc. Este ecumenismo desconcerta adversário e desmonta articulações tucanas.
Outra ação de Rubens é a visita aos prefeitos goianos. Ele já visitou mais de 120 prefeitos e, até o final deste ano, pretende ir aos demais. Alguns o recebem de braços abertos. Outros o mandam entrar por mera cortesia. Mas Rubens não se importa. Ele diz que os prefeitos são pragmáticos e mostram-se dispostos a ajudar quem pode ajudá-los. O governo federal pode. Assim, Rubens Otoni, com o status de delegado e porta-voz do presidente em Goiás, vira portador das demandas dos prefeitos junto ao Palácio do Planalto. Nada disso, é claro, implica compromissos eleitorais. Mas, quando chegar o momento, se Rubens gerar alguma expectativa de vitória, todas essas forças interioranas correrão para ele. As pontes já estarão todas construídas.
A terceira ação de Rubens, a ser iniciada no segundo semestre, serão as caravanas da cidadania. O deputado não se peja de dizer que a proposta é cópia em carbono das "caminhadas da cidadania" promovidas por Lula, anos atrás, depois de ter sido derrotado por Fernando Henrique Cardoso. Rubens pretende percorrer várias cidades em um mesmo dia, visitando a população, misturando-se com o povo. Serão atos de natureza político-ideológica, de afirmação e reafirmação de compromissos.
A quarta é o debate com o mundo estudantil, em particular com os acadêmicos. Rubens tem convite para debater em todas as unidades da UEG no interior, e vai visitá-las. O deputado vem trabalhando com uma equipe especial visando elaborar propostas de desenvolvimento da UEG.
Além de todas essas atividades, Rubens ainda mantém na internet um site de informações sobre sua atuação parlamentar. Atua intensamente no tema "reforma política e eleitoral" e ainda percorre ministérios e autarquias ciceroneando autoridades estaduais e municipais em busca de recursos federais.
Apesar de todo o respeito que tem por Marconi, não menospreza o adversário. Pelo contrário. Talvez seja o único governadoriável que vê no senador tucano um adversário formidável que não se deixará derrotar facilmente. Ele nota, contudo, que Marconi tem alguns pontos fracos e está politicamente isolado. Um desses pontos fracos é a debilidade do PSDB. A sigla de Marconi é, enquanto estrutura partidária, um dispositivo frágil, dependente da força e do prestígio de seu líder maior. Na opinião de Rubens, quando se está no governo, o partido não é relevante. Para quem está na planície, uma estrutura partidária forte, organizada e disciplinada faz toda a diferença.
Rubens orgulha-se do que hoje é o PT goiano. Ninguém acreditava nele há 25 anos atrás, quando estreou na vida pública goiana. Hoje, o partido está instalado em todos os municípios. A cada eleição, vem melhorando seu desempenho. Elegeu duas vezes o prefeito de Goiânia, tendo sido, no último pleito, de fundamental importância para a vitória de íris Rezende no primeiro turno. Sempre elege pelo menos três deputados estaduais (o DEM elegeu dois na última eleição, e o PP apenas 1) e pelo menos dois federais (O DEM elegeu apenas um, na última eleição). Assim, com a força de sua militância aguerrida e disciplinada, e o jogo de cintura que seus dirigentes aprenderam a ter depois de apanhar muito da vida, o PT se afirmou no cenário Político goiano como a terceira potencia partidária do Estado. Um partido com quem todos os grandes tem que levar em conta, aceitando-o de igual para igual nas mesas de negociação.