Qualquer folhetim novelesco de esquina tem a receita certa para um casal conviver harmoniosamente: respeito mútuo e espaço para cada um desenvolver suas potencialidades. Quando um sufoca o outro, mantendo uma rédea curta cercada de ciúmes com receio de que seu crescimento possa superá-lo, ou mesmo, quando não o respeita e não reconhece suas qualidades e virtudes colocando-o sempre para baixo na relação, o desenlace é fatal, mais cedo ou mais tarde. Pior ainda, quando não ocorre o rompimento, os laços se tornam frágeis e o terreno se torna fértil para a traição de ambos os lados. Aí, com a quebra recíproca da confiança já não predomina mais a razão, prevalecendo o imponderável. Nestas circunstâncias, tudo pode acontecer entre tapas e beijos.
O enlace que o PT e o PMDB procuram estabelecer não é ainda um produto acabado. A aliança ainda não está consolidada, ao contrário, está em um processo de construção, mostrando sinais, sim, de visíveis avanços e vontades políticas claramente manifestas de ambas as partes em acelerar seus passos. Não é para menos, afinal, em passado recente, acumulou-se um contencioso de problemas oriundos de eleições em que o PMDB manteve candidaturas puro-sangue e que agora é preciso ganhar confiança mútua para poder superá-los.
É claro que nestas eleições municipais obteve se um salto enorme, aparando arestas e pavimentando uma avenida que tem como objetivo estratégico a formatação dessa aliança. A condução que o PMDB deu as eleições em Goiânia, de forma especial, abrindo espaço para a composição com o PT na sua chapa majoritária e participação na administração municipal deu uma demonstração visível de autocrítica e de correção de rumo. Esse passo foi importante e emblemático, apesar de em outros municípios onde as condições políticas também estavam maduras para essa composição não ter ocorrido como em Catalão, Luziania e Rio Verde, só para citar alguns. Em Anápolis, onde se poderia ter construído essa aliança, a situação foi pior: o PMDB bateu de frente com o PT. Mas tudo isso faz parte mesmo da construção desse processo em que as situações políticas em cada município são diferenciadas e caminham segundo os ditames de cada correlação de forças e de suas idiossincrasias.
O PT sempre tem dito que em Goiás seu aliado preferencial é o PMDB, mas que trabalha para ampliar o leque dessa aliança incorporando na medida do possível todos os partidos que fazem parte da base de sustentação do governo Lula. Nesse sentido, cabe nesse arco de alianças, além do PT e PMDB, o PP, o PR, PCdoB e PTB, entre outros. Esse é o objetivo a ser trabalhado e não se pode excluir de antemão ninguém a não ser que não se queira fazer parte desse projeto. Aí, nesse ponto o PT tem divergência com o PMDB, pois, enquanto quer ampliar o arco de alianças, os peemedebistas querem estabelecer um campo de alianças restrito quase que somente com o PT, excluindo possíveis aliados.
Por outro lado, o PT também tem dito que todos os partidos que queiram fazer parte desse projeto podem e devem disponibilizar seus nomes que se disponham a disputar as eleições para governador e no momento certo e na hora aprazada de escolher o nome quem tiver melhor aceitação e tiver melhor capacidade de aglutinação deverá ser o escolhido. Foi diante desse entendimento que Rubens Otoni reuniu a Executiva do PT e colocou seu nome à disposição para concorrer ao governo e, somente assim, começou a caminhar e percorrer o Estado. Contudo, os seus primeiros movimentos já incomodaram o PMDB. Alguns dirigentes peemedebistas contrariados enxergaram na atitude do PT o desejo de marchar sozinho e lançar candidato próprio.
O PT não vai lançar candidato próprio. O PT está colocando, sim, o nome de Rubens Otoni à disposição para ser apreciado juntamente com outros nomes dentro do projeto de uma ampla aliança, em momento oportuno. Isso é muito diferente de lançar candidatura própria.
Nesse projeto de formar uma aliança dos partidos que fazem parte da base de sustentação do governo Lula ninguém pode querer ter o monopólio na indicação das candidaturas majoritárias. Tem que ser um processo aberto e transparente.
Se as eleições fossem hoje e agora, com certeza, o candidato desta aliança seria o prefeito de Goiânia. Entretanto, as eleições não são agora, somente vão ocorrer daqui a um ano e meio. Não há porque engessar o processo de escolha de candidatos se ninguém ainda sabe o que pode acontecer. O melhor nestas circunstâncias é definir regras claras entre os parceiros e deixar o processo deslanchar, com, ou sem, tapas e beijos. O freguês é que escolhe.
Fernando Safatle é economista e presidente do PT de Catalão.