Rubens Otoni
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Rubens Otoni - 04/03/2009 - Lula de braços dados com Keynes
04/03/2009
Lula de braços dados com Keynes

Fernando Safatle

"Patriotas donas de casa, invadam amanhã cedo as ruas e vão às maravilhosas compras que estão anunciadas por toda parte. Vocês farão um benefício a si mesmas, pois jamais houve coisas tão baratas, baratas além de seus sonhos. Armazenem roupas brancas, lençóis e cobertores, para satisfazer todas as suas necessidades. E tenham a mais a alegria de estarem aumentando o emprego, elevando a riqueza do País, pois estarão ajudando a firmarem-se atividades úteis, dando uma oportunidade e uma esperança a Lancashire, Yorkshire e Belfast." Não se enganem os incautos ao pensar de que se trata de um discurso inflamado do presidente Lula convocado a dar um alento ao atordoado povo inglês mergulhado nas profundezas da crise do capitalismo financeiro que abalou o mundo. Os impactos da crise mundial na economia brasileira já começaram a refletir sobre os indicadores econômicos e sociais que exigem uma dedicação exclusiva do presidente aos nossos problemas. Essa conclamação ao consumo faz parte de um trecho importante de ensaio escrito por nada mais nada menos do que Keynes: capítulo sobre a Grande Depressão de 1930, no texto, Inflação e Depressão.

Se o presidente Lula já não declarasse em alto e bom som que não é afeito a leituras, poderia se dizer que nesta época de crise tinha na sua cabeceira da cama a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro e se convertido em um devoto keynesiano de tão semelhante é o seu discurso conclamando ao consumo quanto ao de Keynes. Aliás, de tão semelhante, só falta mesmo incorporar em seu discurso conceitos como eficiência marginal do capital, propensão a consumir, demanda agregada, armadilha da liquidez e tantos outros que os economistas estão familiarizados.

Contudo, seu receituário desenvolvimentista continua e, mais adiante, antecipando ao megaprograma que Lula vai lançar de construção de um milhão de moradias, Keynes afirma: "Façam o que for necessário para satisfazer as mais sensíveis necessidades de vocês e de suas casas, realizem melhoramentos, construam."

As identidades keynesianas não param por aí, sobrou uma reprimenda para a política conservadora do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles: "O que precisamos, agora, não é apertar os cintos, mas adotar um humor de expansão, de atividades – fazer coisas, comprar coisas, produzir."

Certamente, o ministro Guido Mantega, como economista, deve ter aprendido a lição de Keynes, pois pontifica dentro do governo como um desenvolvimentista convicto e assinaria em baixo tranquilamente outro trecho de seu ensaio: "O paciente não precisa de repouso, mas de exercício. Não se podem empregar homens pela paralisação, pela recusa de encomendas, pela inatividade. Ao contrário, atividade – de um ou de outro tipo – é o único meio possível de repor em movimento as rodas do progresso e da produção de riqueza."

Seria enfadonho reproduzir outros trechos do importante ensaio sobre o crash de 29 quando Keynes esgrime e desmonta com argumentos consistentes posições conservadoras que propugnavam medidas de contenção, redução de gastos e incentivo à poupança e outras firulas que contribuíam somente para agravar a crise, aprofundando a depressão econômica e o desemprego.

Quando Lula incentivou o consumo das pessoas como medida anticíclica, pressionando para baixar as taxas de juros e reduzindo o IPI na venda de carros, ou mesmo quando conclamou os prefeitos a investir, não faltou quem o criticasse: vozes saindo das trevas enviesadas por um discurso oposicionista conservador de um profundo pessimismo diziam que o presidente estava incentivando a gastança.

A oposição conservadora ancorada pelas forças incrustadas no DEM tem ojeriza às teses keynesianas especialmente quando legitima a ação do Estado como elemento importante na recomposição da demanda efetiva em momentos de recessão e desemprego. Nestas circunstâncias, o mito de que o Estado deve pautar por grande austeridade financeira, não podendo gastar mais do que tem, cai por terra e o déficit fiscal passa a ser uma peça importante na recuperação econômica, para desespero e angústia dos neoliberais. Como exemplo, os EUA conseguiram reerguer sua economia na medida em que os gastos do governo aumentaram consideravelmente, passando de 2,5% em 1929, para 20% do PIB em 1939. Isto, evidentemente, nada importa aos neoliberais, afinal, apostar na crise, no fraco desempenho do PAC e no insucesso do governo significa a única alternativa para poder capitalizar a insatisfação popular e catapultar uma candidatura com alguma chance de ganhar as próximas eleições presidenciais.

Quando Lula afirmou que a crise estava fazendo apenas uma marola na economia brasileira, a oposição caiu de pau faltando chamá-lo de mistificador e embusteiro. Na realidade, não queriam um presidente que vendesse otimismo e que soubesse aproveitar as oportunidades que a crise oferece.

Keynes, para finalizar, também se posicionou de forma otimista diante da crise. Seu último trecho desse importante ensaio termina com uma postura positiva: "Confiemos, portanto, em que estamos sofrendo as dores juvenis do crescimento, e não do reumatismo da velhice. Estamos falhando em usar plenamente nossas oportunidades, falhando em encontrar uma aplicação para o grande aumento em nossa capacidade e em nossa energia produtivas. Portanto, devemos ser agressivos. Atividade, ousadia e espírito empreendedor, tanto individual quanto nacionalmente, tais devem ser os remédios."


Fernando Safatle é economista e presidente do PT de Catalão



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